Física Teórica mostra que no universo científico cabem homens e mulheres!

A imagem pode conter: 1 pessoaNeste mês da mulher o Space News MT busca homenagear as que lutam pela popularização da ciência no âmbito de Mato Grosso. Nesta entrevista apresentamos Almeira del Carmen Sampson Sandia, bacharel em física pela Universidade de Los Andes (ULA) na cidade de Mérida-Venezuela, mestre em Física Teórica pelo Instituto de Física Teórica IFT da UNESP e Doutora em física Teórica pela mesma instituição e que faz um belo trabalho na UFMT desde 2015. Conheça mais sobre seu trabalho.

Space News MT – Em quais setores as pessoas formadas em sua área podem atuar?

Almeira Sampson – Como físico as áreas de atuação são extensas, eu sou física teórica, e, mais especificamente, estudo os fundamentos da gravidade. São estudos de física fundamental e limitados à área acadêmica; geralmente os físicos teóricos trabalham em universidades ou centros de pesquisa. Mas os físicos, dependendo da sua especialização, podem atuar desde na indústria de tecnologia a instituições bancárias ou até mesmo em hospitais.

SNMT – Qual sua área de trabalho na UFMT?

AS – Eu fui professora do departamento de Matemática da UFMT, a física teórica também pode ser interpretada como Matemática aplicada. Sendo físicos com uma formação muito grande em matemática, podemos atuar tanto na física quanto na matemática. Atualmente sou professora da UNIC nas áreas de física e matemática e estou desenvolvendo um projeto de pós doutorado na Universidade San Sebastaian de Valdivia no Chile.

SNMT – Há quantos anos atua no Brasil? E onde atuava antes?

AS – Estou no Brasil desde o ano 2007. Vim recém-formada como bacharel em Física na Venezuela.

SNMT – Sente melhora ou piora ou que nada mudou desde que iniciou seu trabalho na UFMT?

AS – Trabalho na UFMT desde 2015, realmente acho que não tenho suficiente tempo de atividade para saber se tem melhorado ou piorado, porém, fica claro que o ensino da ciência é precário e muito limitado.

SNMT – O que sente dos alunos que ensina? Estão motivados a aprender e até atuar sobre o assunto ministrado?

AS – Vamos ter sempre alunos motivados, porém, a atitude mais generalizada é de desmotivação, parece que muitos dos alunos não são bem orientados às carreiras que vão seguir na Universidade, não é feita uma análise vocacional e, além disso, para o aluno é muito difícil se manter motivado quando se defronta, na faculdade, com muita matéria que não foi aprendida no ensino fundamental e médio. Isto é um ainda maior nas disciplinas de matemática, onde se manifestam de forma mais clara as deficiências do ensino fundamental e médio na área, deficiências que, muitas vezes, é impossível de solver na universidade e acredito, que daí vem o alto índice de desistência nas universidades públicas brasileiras, onde só se formam 3 de cada 10 alunos que ingressam.

SNMT – Há alguma dificuldade por ser mulher em um universo onde a maioria é do sexo masculino?

AS – Definitivamente a Física Teórica é uma das áreas onde a representação feminina é muito baixa. Por ser um ambiente muito masculino as atitudes femininas muitas vezes não são entendidas ou bem aceitas, muitas de nós acabamos nos mimetizando com nossos companheiros em uma forma de adaptação ao meio. Por outro lado, acredito que temos já superada a discriminação institucional com as mulheres. Atualmente é difícil achar um caso de mulheres que sejam rejeitadas para vagas ou bolsas pelo fato de ser do sexo feminino como acontecia no passado, mas ainda permanece um preconceito que considera limitada a capacidade das mulheres perante os homens. Este comportamento também tem mudado claramente de uma geração a outra, as novas gerações não têm esses preconceitos tão arraigados, atualmente é frequente observar mulheres se formando e ocupando cargos importante nos grupos de pesquisa. Um exemplo, os dois últimos anúncios de descobertas mais importantes na área foram feitos por mulheres: Fabiola Gianotti (diretora do CERN) anunciou a descoberta do Bóson de Higgs e Gabriela Gonzaléz da diretiva do LIGO, anunciou a descoberta das ondas gravitacionais. Estes casos e outros mais, ilustram claramente uma  mudança na posição da mulher na Física.

SNMT – Em sua opinião, por que existem tão poucas mulheres na área científica?

AS – Se olharmos um pouco de historia, Sofia Kovalévskaya em 1884 vira a primeira mulher a obter um cargo de professora em uma universidade (a Universidade de Estocolmo/Suécia), foi uma matemática que também fez estudos em Astronomia, ou seja uma cientista, a primeira mulher a obter uma vaga no magistério superior ser uma cientista ilustra como o interesse das mulheres em ciências sempre existiu e não é necessariamente menor do que em outras áreas, mas a discriminação para a educação das mulheres era muito alta e ainda é em muitas partes do Mundo. Não são poucas as contribuições de mulheres à ciência que têm sido ignoradas ou até  ocultas como são os casos de Emilié du Chatelet, Marie de Lavoisier ou a mesma Roselind Franklin, que contribuíram muito para o desenvolvimento científico, mas ficaram esquecidas pela historiografia. Isso fez reforçar a ideia popular da ciência ser uma atividade masculina.  Contudo, é um tema difícil de abordar, existem muitos estudos que atribuem diferentes causas para existirem poucas mulheres na ciência, desde motivos biológicos (como a maternidade) até estudos que atribuem razões somente culturais. Ainda temos tabus que tentam atribuir funções às mulheres e aos homens na sociedade, impondo no discurso muitas vezes as preferencias da minoria majoritária, motivando comportamentos diferentes. Pessoalmente não sei se naturalmente existiria igual quantidade de mulheres e homens na ciência, somente espero que todo aquele que queira fazer ciência não seja discriminado, seja por seu sexo ou origem. Pode ser que em umas poucas décadas possamos ver realmente os verdadeiros interesses dos indivíduos quando as escolhas forem completamente livres.

SNMT – O que seria necessário para que elas estivessem mais envolvidas?

AS – Eu prefiro olhar não só o comportamento das mulheres perante a ciência, mas também dos homens, vemos que em um mundo cada vez mais dependente da ciência não temos um pensamento e comportamento científico bem desenvolvido. Acho que a sociedade em geral deveria estar mais envolvida com a ciência. As mulheres costumam ficar mais no cerne familiar e também são mais presentes na educação dos filhos. Então envolverar a sociedade e a família em geral levará a um maior interesse das mulheres na ciência e vice-versa.

SNMT – Fale um pouco sobre o que você vai apresentar no II Mini-Circuito de Astronomia “Descobrindo o céu de Cuiabá”, que acontece dia 8 de abril.

AS – Vou apresentar uma palestra sobre Ondas Gravitacionais, como são geradas pelos eventos mais maravilhosos do Universo; o mesmo Big Bang e os Buracos Negros, também falarei como foram detectadas em 2015 e como essa descoberta inicia uma nova área da observação astronômica.

SNMT – Qual conselho você dá para as meninas que querem seguir sua área, o qual perfil devem ter?

AS – Receio que meu conselho não se limita a ser físico teórico. Diria que antes de começar a carreira deve-se ter paixão pela área, estar dispostas a ficarem muitas noites em claro, estar dispostas a se rebelar a muitas tradições familiares. É uma área que, para se formar, geralmente temos que trocar várias vezes de cidade por causa do estudo e sair de casa muito jovens. É importante nunca se vitimizar por ser mulher, entender que não é preciso deixar de ser feminina para se tornar Físico e sempre se posicionar com firmeza quando as situações forem desconfortantes. Mas, sobretudo, o que é preciso é gostar, acordar todo dia com uma pergunta, ter uma atitude científica perante a vida, estudar muito! E nunca deixar de ter curiosidade pelo Mundo e pela Natureza!

(Por: Adriana Nascimento – Space News MT – Crédito Foto: Luci Mary Dias Rosal)

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