Rede que inclui MT valida 2 chuvas de meteoros na UAI

 

Figura 1. Composição das órbitas dos meteoros do radiante August Caelids e Figura 2. Composição com as órbitas do radiante Epsilon Gruids

A notícia de que o Meteor Data Center, órgão ligado à União Astronômica Internacional (UAI)  incluiu, pela primeira vez na sua lista geral de chuvas de meteoros, duas descobertas feitas por brasileiros integrantes da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (Bramon), orgulha também a Mato Grosso que integra a entidade com estações em Rondonópolis e São José dos Quatro Marcos. As chuvas são as recém-batizadas Epsilon Gruídeos (Epsilon Gruids – EGR) e a Caelídeos de Agosto (August Ceaelids – ACD), localizadas nas constelações do Grou e do Cinzel, respectivamente.

 

O planeta Terra, em seu giro anual ao redor do Sol, encontra ocasionalmente pequenas partículas no espaço – os chamados meteoróides. Quando estas partículas penetram na atmosfera provocam o fenômeno luminoso conhecido como meteoros, popularmente chamados de “estrelas cadentes”. Ao longo do ano, algumas datas são especialmente favoráveis aos seus avistamentos. São as noites em que ocorrem as chuvas de meteoros.

As descobertas das duas novas chuvas couberam à Bramon, que desde 2014 tem realizado um trabalho de monitorar os céus do país, registrando os meteoros que surgem. Atualmente, a rede conta com 82 estações de monitoramento, em 19 estados do Brasil sendo quatro dessas estações em Mato Grosso. Ao longo deste tempo de atuação, a entidade construiu um banco de dados contendo registros em vídeo de mais de 86 mil meteoros. Apesar de sua juventude, a Bramon já se destaca como uma das maiores redes de monitoramento do mundo, e uma das poucas do hemisfério sul da Terra.

Desde o início da rede os meteoros já vinham sendo registrados, mas no catálogo de chuvas os meteoros pertenciam ao grupo dos Esporádicos, ou seja, que não pertencem a nenhuma chuva catalogada. Então em 2016 se iniciou um trabalho de averiguação sobre esses grupos de Esporádicos que vinham da mesma região do céu. Após muitos cálculos, os estudos foram enviados à União Astronômica Internacional, onde eles as validaram. Os Esporádicos eram de fato uma chuva de meteoros não catalogada.

O astrônomo amador e responsável pela rede Bramon em Rondonópolis, Vandson Guedes, informa que, apesar de ele e Izaac Leite, responsável pelas três estações em São José dos Quatro Marcos, não terem tido o mesmo meteoro capturado por suas estações, conseguiram capturaram os meteoros dessa chuva no que chamam de meteoro ‘Single’ (onde não ocorre o pareamento do meteoro, mas este é registrado em apenas uma das estações).

A União Astronômica Internacional mantém o catálogo atualizado de todas estas “chuvas”, com as datas e as posições no céu em que são visíveis. A lista possui quase 800 grupos de meteoros. Um dos grandes interesses da Bramon é registrar um mesmo meteoro sob vários pontos de vista. Isto é, ter vídeos de um mesmo meteoro gravados em cidades diferentes. Isto possibilita determinar a órbita que o referido meteoro possuía antes de encontrar a Terra pelo caminho. Guedes explica que a validação de uma chuva e feita por estudos matemáticos. Registra-se, obtêm-se os dados e aí são feitos os cálculos para detectar sua constância.

Assim, em três anos de operação da Bramon, foram determinadas 4205 órbitas. A grande maioria consiste de meteoros pertencentes a “chuvas” já catalogadas. Outros, num primeiro olhar, pareciam apenas vir de pontos aleatórios do céu, os chamados meteoros esporádicos.

Oportunidade

Quando os registros do banco de dados completaram três anos, foi hora de iniciar uma pesquisa para saber se, dentre os meteoros esporádicos, existiria alguma nova família a ser descoberta. Os trabalhos tiveram início no final de 2016. Os pesquisadores Carlos Di Pietro (São Paulo – SP) e Marcelo Zurita (João Pessoa – PB) observaram que um grupo de meteoros parecia surgir de um único ponto no céu, na constelação do Grou. Mas confirmar uma nova chuva de meteoros não é tarefa fácil. Vários testes tiveram que ser empregados, envolvendo uma análise matemática sofisticada.

A descoberta

No final de janeiro de 2017, outro integrante da Bramon, Lauriston Trindade (Maranguape – CE) integrou o grupo de pesquisa com objetivo de realizar os cálculos e conseguir a validação da descoberta. “Foram centenas de cálculos, envolvendo milhares de meteoros. Foram dezenas de leituras de artigos para o entendimento dos cálculos. Ferramentas matemáticas tiveram que ser totalmente desenvolvidas para facilitar o trabalho. Foi um mês de trabalho dedicado. E para a alegria de todos, não só foi possível validar o primeiro grupo descoberto, como acabar encontrando um segundo grupo válido. Carlos Di Pietro conferiu todos os cálculos e os aprovou. Assim, a Bramon estava prestes a conseguir a descoberta de duas chuvas de meteoros”, disse Lauriston.

A validação

De posse dos dados orbitais das duas “chuvas”, o Meteor Data Center foi comunicado no último dia 9 de março, e em 20 de março as duas novas chuvas descobertas pela Bramon foram incluídas na lista oficial da União Astronômica Internacional. Tanto a Epsilon Gruídeos quanto a Caelídeos de Agosto foram incluídas com o status “Working pro tempore”. Por serem “chuvas” com baixa taxa de ocorrência de meteoros, ainda carecem de mais observações, que agora serão feitas por outros observadores espalhados pelo mundo. Descobertas desta natureza têm grande importância para a comunidade científica, pois mostram o poder de uma rede de pesquisa voluntária e colaborativa, formada por cidadãos comuns que têm interesse em produção e divulgação científica.

Os dados orbitais das novas chuvas podem ser encontrados clicando em Epsilon Gruids: e August Caelids.

(Adriana Nascimento – Space News MT com informações da Rede Bramon)

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